|
Getting your Trinity Audio player ready...
|
Você já parou para pensar em como funcionam os bastidores da reciclagem no Brasil? Enquanto separamos nosso lixo em casa, existe toda uma cadeia produtiva que transforma esses materiais descartados em fonte de renda para milhares de famílias.
As cooperativas de reciclagem são o coração desse sistema, reunindo catadores e catadoras que trabalham diariamente para dar nova vida aos resíduos que produzimos.
Mas como exatamente essas pessoas são remuneradas? O modelo de pagamento é justo? Essas são questões fundamentais para entendermos não apenas o funcionamento dessas organizações, mas também os desafios sociais e econômicos que enfrentam.
O sistema de remuneração nas cooperativas de materiais recicláveis é bastante diferente do que encontramos em empresas tradicionais. Não existe um salário fixo mensal como estamos acostumados a ver no mercado formal. Em vez disso, os cooperados recebem de acordo com a produção coletiva e, em alguns casos, individual.
Esse modelo traz vantagens e desvantagens que precisam ser compreendidas por quem tem interesse em apoiar ou até mesmo fazer parte desse movimento. Ao longo deste artigo, vamos explorar detalhadamente como funciona essa dinâmica financeira, quais fatores influenciam os ganhos dos cooperados e o que pode ser feito para melhorar a situação desses trabalhadores essenciais para a sustentabilidade urbana.
O Que São Cooperativas de Reciclagem e Sua Importância Social
As cooperativas de reciclagem são organizações formadas por catadores de materiais recicláveis que se unem para trabalhar de forma coletiva e organizada.
Diferentemente dos catadores individuais que atuam nas ruas, os membros das cooperativas contam com uma estrutura mínima de trabalho, que geralmente inclui um galpão para triagem, prensas, balanças e outros equipamentos necessários para o processamento dos materiais.
Essas organizações operam sob os princípios do cooperativismo, onde cada membro é ao mesmo tempo dono e trabalhador do empreendimento, participando das decisões em assembleias e compartilhando tanto os lucros quanto as responsabilidades.
A importância dessas cooperativas vai muito além da questão ambiental. Elas representam uma alternativa de geração de renda para pessoas que, muitas vezes, não conseguem inserção no mercado de trabalho formal devido à baixa escolaridade, falta de qualificação profissional ou situação de vulnerabilidade social.
Segundo dados do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, existem cerca de 800 mil a 1 milhão de catadores no Brasil, sendo que apenas uma parcela está organizada em cooperativas.
Quando organizados, esses trabalhadores conseguem melhores condições de negociação com compradores, acesso a equipamentos e, consequentemente, uma remuneração mais digna. Além disso, as cooperativas contribuem significativamente para a redução do volume de resíduos enviados aos aterros sanitários, economizando recursos naturais e energia que seriam gastos na produção de novos materiais.
Como Funciona o Sistema de Remuneração nas Cooperativas

O modelo de remuneração mais comum nas cooperativas de reciclagem é baseado na divisão de sobras ou excedentes. Isso significa que, após a venda dos materiais recicláveis e o pagamento de todas as despesas operacionais da cooperativa — como aluguel do galpão, contas de água e energia, manutenção de equipamentos e combustível —, o valor restante é dividido entre todos os cooperados.
Essa divisão pode acontecer de diferentes formas, dependendo do estatuto e das regras internas de cada organização. Algumas cooperativas optam pela divisão igualitária, onde todos recebem a mesma quantia independentemente da função que exercem. Outras adotam critérios como produtividade individual, dias trabalhados ou tipo de atividade realizada.
Na prática, o processo funciona assim: os materiais recicláveis chegam à cooperativa vindos de coleta seletiva municipal, doações de empresas, condomínios ou da coleta realizada pelos próprios cooperados.
Esses materiais passam por uma triagem criteriosa, onde são separados por tipo — plástico, papel, papelão, metal, vidro — e, dentro de cada categoria, por qualidade e cor. Após a separação, os materiais são enfardados, pesados e vendidos para intermediários ou diretamente para a indústria recicladora.
O valor recebido pela venda constitui a receita da cooperativa. É importante entender que os preços dos materiais recicláveis variam constantemente de acordo com o mercado, o que afeta diretamente a remuneração dos cooperados. Em meses de alta no mercado, os ganhos podem ser mais significativos; em períodos de baixa, a situação financeira fica mais apertada.
Fatores Que Influenciam os Ganhos dos Cooperados
Vários elementos determinam quanto um cooperado de reciclagem vai receber ao final do mês. O primeiro e mais óbvio é a quantidade de material coletado. Quanto mais resíduos recicláveis chegam à cooperativa, maior será o volume vendido e, consequentemente, maior a receita.
Por isso, parcerias com prefeituras para realizar coleta seletiva, convênios com empresas e condomínios e campanhas de conscientização são fundamentais para garantir um fluxo constante de materiais.
Cooperativas que conseguem estabelecer essas parcerias tendem a ter uma renda mais estável e previsível para seus membros.
O segundo fator crucial é a qualidade da triagem. Materiais bem separados e limpos alcançam preços melhores no mercado. Por exemplo, um plástico PET transparente limpo vale significativamente mais do que o mesmo material sujo ou misturado com outros tipos de plástico.
Por isso, o treinamento dos cooperados para realizar uma triagem eficiente é essencial. Algumas cooperativas investem em capacitação continuada, ensinando seus membros a identificar diferentes tipos de materiais e agregando valor ao que é vendido. Além disso, a infraestrutura disponível também impacta diretamente nos ganhos.
Cooperativas que possuem prensas, balanças de precisão e caminhões próprios conseguem reduzir custos operacionais e negociar melhores preços, pois podem vender volumes maiores diretamente para a indústria, eliminando intermediários.
Outro aspecto importante é a gestão administrativa e financeira da cooperativa. Organizações que mantêm uma contabilidade transparente, controlam bem seus custos e buscam constantemente novas oportunidades de negócio tendem a gerar melhores resultados para seus cooperados.
A presença de parcerias com universidades, ONGs e poder público também pode trazer recursos adicionais através de projetos, equipamentos doados e capacitação técnica.
Por fim, as oscilações do mercado de recicláveis, influenciadas pela economia global, demanda industrial e até mesmo pela cotação do petróleo (que afeta o preço do plástico virgem), impactam diretamente quanto os cooperados vão receber.
Em períodos de crise econômica, por exemplo, a indústria reduz a produção e, consequentemente, diminui a compra de materiais reciclados, fazendo os preços caírem.
Modelos de Distribuição de Renda e Suas Particularidades
Existem diferentes modelos de distribuição de renda adotados pelas cooperativas de reciclagem, cada um com suas vantagens e desafios. O modelo mais tradicional é a divisão igualitária, onde todos os cooperados recebem o mesmo valor ao final do período de apuração, independentemente da função que exercem ou da quantidade individual produzida.
Esse sistema é baseado no princípio cooperativista de igualdade e solidariedade, reconhecendo que todas as funções são importantes para o funcionamento do conjunto. Nesse modelo, tanto quem faz a triagem quanto quem opera a prensa ou dirige o caminhão recebe a mesma remuneração.
A principal vantagem é a promoção da coesão do grupo e a redução de conflitos internos. No entanto, pode gerar desmotivação em cooperados mais produtivos, que sentem que seu esforço adicional não é reconhecido financeiramente.
Outro modelo adotado por algumas cooperativas é a remuneração por produtividade individual. Nesse sistema, cada cooperado recebe de acordo com a quantidade de material que triou, pesou ou processou.
Geralmente, utiliza-se um sistema de pontos ou fichas para registrar a produção de cada pessoa ao longo do dia ou da semana. Ao final do período, as sobras são divididas proporcionalmente à contribuição de cada um.
Esse modelo incentiva a produtividade e pode aumentar significativamente o volume processado pela cooperativa. Por outro lado, pode criar competição excessiva entre os membros, prejudicar o trabalho em equipe e até mesmo levar a conflitos sobre a qualidade da triagem, já que alguns podem priorizar quantidade em detrimento da qualidade.
Um terceiro modelo, que tem ganhado espaço em cooperativas mais estruturadas, é o sistema misto. Nele, uma parte do valor é distribuída igualmente entre todos os cooperados, garantindo uma base mínima de remuneração, e outra parte é dividida de acordo com critérios de produtividade ou função exercida.
Por exemplo, 70% das sobras podem ser divididas igualmente e 30% distribuídas conforme a produção individual. Esse modelo busca equilibrar os princípios de solidariedade e igualdade com o reconhecimento do mérito e do esforço individual.
Algumas cooperativas também estabelecem bonificações para funções de maior responsabilidade, como coordenadores, tesoureiros ou motoristas, que recebem um adicional sobre o valor base.
É importante ressaltar que qualquer modelo adotado deve estar claramente definido no estatuto da cooperativa e ser aprovado em assembleia pelos cooperados, garantindo transparência e legitimidade ao processo.
Desafios Financeiros Enfrentados pelas Cooperativas de Reciclagem
As cooperativas de materiais recicláveis enfrentam diversos obstáculos que afetam diretamente a remuneração de seus membros. Um dos principais desafios é a informalidade e falta de acesso a crédito. Muitas cooperativas não possuem CNPJ regularizado ou enfrentam dificuldades burocráticas para manter sua documentação em dia.
Isso impossibilita o acesso a linhas de crédito bancário que poderiam ser usadas para investir em equipamentos, veículos ou melhorias na infraestrutura.
Sem capital para investimento, ficam limitadas a trabalhar com equipamentos precários ou doados, o que reduz sua capacidade de processamento e, consequentemente, sua receita. Além disso, a falta de regularização dificulta a participação em licitações públicas e o estabelecimento de contratos formais com grandes geradores de resíduos.
A dependência de intermediários é outro problema sério. A maioria das cooperativas não consegue vender diretamente para a indústria recicladora devido ao volume insuficiente de material ou à falta de transporte adequado. Isso as obriga a negociar com atravessadores, que compram por preços bem abaixo do valor de mercado e revendem com lucro para as indústrias.
Essa cadeia de intermediação consome uma parcela significativa do valor que poderia ir para os cooperados. Para se ter uma ideia, em alguns casos, os intermediários ficam com até 40% do valor final do material.
Cooperativas que conseguem se organizar em redes ou centrais de comercialização têm mais poder de barganha e conseguem negociar melhores preços, mas esse nível de articulação ainda é raro no Brasil.
Os custos operacionais elevados também comprometem a remuneração. Aluguel de galpão, contas de água e energia elétrica, manutenção de equipamentos e combustível para veículos representam despesas fixas que precisam ser pagas antes da divisão das sobras.
Em muitos casos, esses custos consomem uma parte substancial da receita, deixando pouco para distribuir entre os cooperados. Cooperativas que não possuem sede própria ou equipamentos doados enfrentam situação ainda mais difícil.
Além disso, a sazonalidade do mercado de recicláveis cria instabilidade na renda. Durante festas de fim de ano, por exemplo, o volume de materiais tende a aumentar, mas em períodos de recessão econômica, tanto o volume quanto os preços caem drasticamente, deixando os cooperados em situação de vulnerabilidade financeira.
Estratégias Para Melhorar a Remuneração dos Cooperados
Felizmente, existem várias estratégias que podem ser implementadas para aumentar os ganhos dos trabalhadores das cooperativas de reciclagem. A primeira delas é o investimento em capacitação e profissionalização.
Quando os cooperados recebem treinamento adequado sobre técnicas de triagem, identificação de diferentes tipos de materiais, operação de equipamentos e até mesmo gestão administrativa, a cooperativa consegue agregar mais valor aos materiais vendidos e reduzir perdas.
Organizações de apoio ao cooperativismo, universidades e o SESCOOP (Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo) oferecem cursos gratuitos ou subsidiados que podem fazer grande diferença nos resultados financeiros.
A verticalização das atividades é outra estratégia poderosa. Em vez de apenas coletar e vender materiais brutos, algumas cooperativas têm investido em processos de beneficiamento que aumentam significativamente o valor agregado.
Por exemplo, transformar garrafas PET em flakes (flocos de plástico limpos e moídos) pode dobrar ou triplicar o preço de venda. Da mesma forma, processar papelão em fardos compactados e uniformes facilita o transporte e aumenta o valor.
Cooperativas que conseguem adquirir equipamentos para essas etapas de processamento, seja através de doações, projetos ou financiamentos, conseguem melhorar substancialmente a remuneração de seus membros. Algumas até produzem artesanato e produtos finais a partir dos recicláveis, criando novas fontes de receita.
A formação de redes e parcerias estratégicas também é fundamental. Quando várias cooperativas se unem em uma rede ou central de comercialização, conseguem reunir volume suficiente para negociar diretamente com a indústria, eliminando intermediários e aumentando seus ganhos.
Além disso, parcerias com empresas através de acordos setoriais de logística reversa, convênios com prefeituras para coleta seletiva remunerada e contratos com grandes geradores (shoppings, empresas, condomínios) garantem um fluxo constante de materiais de qualidade.
As cooperativas também podem buscar certificações ambientais e selos de responsabilidade social que agregam valor à sua marca e abrem portas para parcerias com empresas que valorizam a sustentabilidade.
Por fim, a busca por recursos através de editais públicos, projetos de organizações internacionais e programas governamentais pode trazer investimentos em equipamentos e infraestrutura que impactam diretamente na capacidade produtiva e, consequentemente, na remuneração dos cooperados.
A Realidade da Renda Nas Cooperativas Brasileiras
Para termos uma dimensão concreta da situação financeira dos trabalhadores das cooperativas de reciclagem, é importante olhar para os números reais. Segundo pesquisas realizadas pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Movimento Nacional dos Catadores, a remuneração média dos cooperados no Brasil varia bastante conforme a região, o nível de organização da cooperativa e as condições de mercado.
Em cooperativas mais estruturadas, localizadas em grandes centros urbanos e com boas parcerias, os cooperados podem receber entre um salário mínimo e meio e dois salários mínimos por mês.
Já em cooperativas menores, menos organizadas ou em regiões com menor volume de material, os ganhos podem ficar abaixo do salário mínimo, tornando essa atividade insuficiente para garantir uma vida digna.
É importante destacar que esses valores não incluem benefícios trabalhistas tradicionais como férias remuneradas, 13º salário, FGTS ou aposentadoria por tempo de contribuição.
Como cooperados, essas pessoas não têm vínculo empregatício formal, o que significa que precisam contribuir como autônomos para ter acesso à previdência social.
Na prática, muitos não conseguem fazer essa contribuição devido aos baixos rendimentos, ficando desprotegidos em caso de doença, acidente ou na velhice.
Algumas cooperativas mais organizadas buscam compensar isso criando fundos internos de emergência ou negociando planos de saúde coletivos, mas isso ainda é exceção, não regra.
Comparando com catadores individuais que trabalham nas ruas, os cooperados geralmente têm uma situação um pouco melhor. Os catadores autônomos enfrentam condições ainda mais precárias, trabalhando expostos ao sol, chuva, trânsito e outros riscos, além de serem obrigados a vender seus materiais a preços muito baixos para atravessadores.
Estima-se que a renda média de um catador individual varie entre 300 a 600 reais por mês, dependendo da cidade e do esforço diário.
Quando esses trabalhadores se organizam em cooperativas, além de aumentarem seus ganhos, melhoram suas condições de trabalho, passando a atuar em ambiente coberto, com equipamentos de proteção e com jornadas mais regulares.
Apesar disso, ainda há muito a avançar para que a remuneração nas cooperativas alcance patamares verdadeiramente dignos e compatíveis com a importância social e ambiental do trabalho realizado.
O Papel do Poder Público na Valorização das Cooperativas
A Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela Lei 12.305/2010, reconhece as cooperativas de catadores como atores fundamentais na gestão de resíduos urbanos e estabelece que municípios devem priorizá-las na coleta seletiva.
Na prática, isso significa que prefeituras podem contratar cooperativas, sem licitação, para realizar serviços de coleta, triagem e destinação de materiais recicláveis.
Quando essas parcerias são estabelecidas com remuneração adequada, os cooperados passam a ter uma renda mais estável e previsível, já que recebem não apenas pela venda dos materiais, mas também pelo serviço ambiental prestado à cidade. Infelizmente, nem todos os municípios cumprem essa determinação legal, e muitas cooperativas continuam trabalhando sem nenhum apoio ou remuneração do poder público.
Além da contratação direta, governos municipais, estaduais e federal podem apoiar as cooperativas de outras formas. A cessão de terrenos ou galpões públicos para instalação das cooperativas reduz significativamente os custos operacionais, deixando mais recursos para serem distribuídos entre os cooperados.
Programas de doação ou financiamento subsidiado de equipamentos — como prensas, caminhões, empilhadeiras e esteiras de triagem — aumentam a capacidade produtiva dessas organizações.
Alguns estados e municípios também oferecem isenção de impostos, subsídio nas contas de água e energia e até mesmo bolsas de incentivo aos cooperados durante o período de estruturação da cooperativa. Todas essas medidas impactam positivamente na remuneração final dos trabalhadores.
Outro papel crucial do poder público é a implementação efetiva da coleta seletiva. Quanto melhor for o sistema de separação de resíduos na fonte — ou seja, nas residências, comércios e empresas —, maior será a quantidade e qualidade dos materiais que chegam às cooperativas.
Campanhas de educação ambiental, distribuição de lixeiras diferenciadas e fiscalização do descarte correto são essenciais para alimentar a cadeia da reciclagem.
Cidades que investem seriamente em coleta seletiva conseguem desviar uma parcela significativa dos resíduos dos aterros sanitários, economizam recursos públicos com gestão de lixo e, simultaneamente, geram renda para as cooperativas de catadores. É uma situação em que todos ganham: o meio ambiente, os cofres públicos e os trabalhadores da reciclagem.
Como Empresas e Cidadãos Podem Contribuir
Empresas têm um papel importante no fortalecimento das cooperativas de reciclagem e na melhoria da remuneração de seus membros.
Com a implementação da logística reversa prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos, fabricantes, importadores e comerciantes de produtos como embalagens, eletrônicos e pneus são responsáveis por dar destinação adequada aos seus produtos após o consumo.
Ao estabelecer parcerias com cooperativas para coletar e processar esses materiais, as empresas não apenas cumprem suas obrigações legais, mas também geram oportunidades de renda para os cooperados.
Essas parcerias podem incluir pagamento pelo serviço de coleta e triagem, doação de equipamentos, capacitação dos trabalhadores e até mesmo compra preferencial dos materiais reciclados processados pelas cooperativas.
Condomínios residenciais e comerciais também podem fazer a diferença. Estabelecer um programa de coleta seletiva interno e firmar parceria direta com uma cooperativa local garante um fornecimento constante de materiais de qualidade.
Quando os moradores são orientados sobre a separação correta — lavando embalagens, removendo tampas e separando por tipo de material —, o trabalho dos cooperados fica mais fácil e os materiais alcançam melhores preços.
Além disso, alguns condomínios vão além e organizam campanhas de arrecadação de itens específicos, como latinhas de alumínio, que têm alto valor de mercado, doando a arrecadação diretamente para as cooperativas.
No nível individual, cada cidadão pode contribuir para melhorar a remuneração dos trabalhadores da reciclagem através de ações simples mas impactantes.
A primeira e mais importante é fazer a separação correta dos resíduos recicláveis em casa. Lavar embalagens, retirar restos de alimentos, separar diferentes tipos de materiais e acondicionar adequadamente faz toda a diferença na qualidade do que chega às cooperativas.
Materiais sujos ou contaminados muitas vezes não podem ser comercializados e acabam indo para o lixo comum, representando perda de tempo e dinheiro para os cooperados.
Outra forma de contribuir é buscar pontos de entrega voluntária ou levar seus recicláveis diretamente a uma cooperativa próxima, estabelecendo uma conexão direta e consciente com quem faz a reciclagem acontecer.
Por fim, valorizar e consumir produtos feitos com materiais reciclados fecha o ciclo e fortalece toda a cadeia, incentivando a reciclagem e justificando melhores preços para os materiais coletados.
Perspectivas Futuras e Inovações no Setor

O futuro das cooperativas de reciclagem passa necessariamente por inovação e tecnologia. Nos últimos anos, algumas cooperativas brasileiras têm adotado sistemas de gestão informatizados que permitem controlar melhor o fluxo de materiais, rastrear a produção individual de cada cooperado e gerar relatórios financeiros precisos.
Esses sistemas facilitam a tomada de decisões e aumentam a transparência na distribuição das sobras. Aplicativos de celular também começam a ser usados para conectar geradores de resíduos diretamente com cooperativas, facilitando a logística de coleta e aumentando o volume de materiais recebidos.
Algumas startups de tecnologia têm desenvolvido plataformas que funcionam como “marketplaces” de materiais recicláveis, onde cooperativas podem anunciar seus produtos e negociar diretamente com compradores, eliminando intermediários.
A economia circular é outro conceito que traz oportunidades para as cooperativas. À medida que empresas adotam modelos de negócio baseados em circularidade — projetando produtos para serem facilmente desmontados e reciclados, usando materiais reciclados em sua produção e assumindo responsabilidade pelo fim de vida de seus produtos —, cresce a demanda por serviços de coleta, triagem e processamento de materiais.
As cooperativas que se posicionarem estrategicamente nesse mercado, oferecendo serviços especializados e materiais de qualidade certificada, poderão acessar contratos mais rentáveis e melhorar significativamente a remuneração de seus membros.
Algumas cooperativas já estão explorando nichos específicos, como reciclagem de eletrônicos, processamento de resíduos de construção civil ou compostagem de orgânicos, diversificando suas fontes de receita.
As mudanças climáticas e a crescente preocupação ambiental global também favorecem o fortalecimento das cooperativas de reciclagem. Com metas cada vez mais ambiciosas de redução de emissões de carbono e de envio de resíduos para aterros, governos e empresas precisarão investir massivamente em infraestrutura de reciclagem.
As cooperativas, como protagonistas históricas desse setor no Brasil, têm tudo para se beneficiar desse movimento, desde que recebam o apoio necessário para se modernizarem e se profissionalizarem.
Políticas públicas que reconheçam e remunerem adequadamente o serviço ambiental prestado por esses trabalhadores são fundamentais para que possam ter uma remuneração digna e condições de trabalho compatíveis com a importância de sua atividade para a sociedade e o meio ambiente.
Perguntas Frequentes Sobre Cooperativas de Reciclagem
Quanto ganha em média um cooperado de reciclagem?
A remuneração varia muito conforme a região e a estrutura da cooperativa, mas geralmente fica entre meio salário mínimo e dois salários mínimos mensais. Cooperativas mais organizadas e com boas parcerias conseguem oferecer ganhos maiores, enquanto aquelas menos estruturadas podem ter rendimentos inferiores ao salário mínimo.
Cooperados de reciclagem têm direitos trabalhistas?
Como membros de cooperativas, eles não têm vínculo empregatício formal e, portanto, não recebem benefícios como férias, 13º salário ou FGTS. Para ter acesso à previdência social, precisam contribuir como autônomos. Algumas cooperativas criam fundos internos para emergências, mas isso não é obrigatório.
Qualquer pessoa pode entrar em uma cooperativa de reciclagem?
Geralmente sim, mas cada cooperativa tem suas próprias regras de admissão. Normalmente é necessário passar por um período de experiência, participar de capacitações e ser aprovado em assembleia pelos demais cooperados. Algumas cooperativas priorizam pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Como as cooperativas vendem os materiais coletados?
Elas podem vender para intermediários, que revendem para a indústria, ou diretamente para indústrias recicladoras quando conseguem reunir volume suficiente. Cooperativas organizadas em rede têm mais poder de barganha e conseguem melhores preços. O pagamento geralmente é feito por quilo ou tonelada de material.
O que é necessário para abrir uma cooperativa de reciclagem?
É preciso reunir no mínimo 20 pessoas interessadas, elaborar um estatuto, registrar a cooperativa na junta comercial e obter CNPJ. Também é necessário ter um espaço para triagem dos materiais, equipamentos básicos e estabelecer parcerias para o fornecimento de resíduos. Organizações de apoio ao cooperativismo oferecem orientação gratuita para esse processo.
Cooperativas pagam impostos?
Cooperativas de trabalho têm alguns benefícios fiscais e podem estar isentas de certos impostos, mas precisam manter sua contabilidade em dia e cumprir obrigações acessórias. A situação tributária varia conforme o faturamento e o regime escolhido. É importante contar com assessoria contábil especializada.
Este artigo buscou oferecer uma visão ampla e realista sobre como funciona a remuneração nas cooperativas de reciclagem brasileiras. Como você percebeu, o sistema é complexo e enfrenta muitos desafios, mas também apresenta oportunidades de melhoria e fortalecimento. A valorização desses trabalhadores passa pelo reconhecimento da importância de seu trabalho, pela implementação de políticas públicas adequadas e pelo engajamento de empresas e cidadãos na cadeia da reciclagem. Cada um de nós pode fazer a diferença separando corretamente nossos resíduos e apoiando essas organizações fundamentais para a sustentabilidade urbana.
E você, o que pensa sobre a remuneração dos catadores de materiais recicláveis? Conhece alguma cooperativa na sua cidade? Já teve alguma experiência de doação direta de materiais recicláveis? Compartilhe sua opinião e experiências nos comentários abaixo. Vamos continuar essa conversa importante sobre valorização do trabalho e sustentabilidade!

Recém-formado, Rafael começou sua carreira em uma corretora de valores em São Paulo. Era 2008, e o mundo financeiro atravessava uma das maiores crises de sua história.

